31/08/2016 12h35 - Atualizado em 31/08/2016 12h36

“BRASIL MOSTRA A TUA CARA”

“BRASIL MOSTRA A TUA CARA”
(Psicanálise e momento político)

Lázaro Tavares

Brasil mostra a tua cara
Quero ver quem paga
Pra gente ficar assim
Brasil!
Qual é o teu negócio?
O nome do teu sócio?
Confia em mim...!

Cazuza, por meio de sua música, convoca o Brasil para mostrar a cara, ele quer ver quem paga, qual é o negócio, o nome do sócio o futuro do Brasil.

Como a psicanálise poderia "diagnosticar" o Brasil neste momento de crise profunda? Nesse momento eleitoral com a “Lava jato”, com “os fichas sujas” e “fichas limpas”, com uma incerteza de se poder confiar, com a repetição das mesmas “caras” (candidatos), enfim: há cura possível?

Estamos vivendo um momento político bastante singular em nosso país. Os afetos estão em órbita. Sair desse ponto é algo decisivo. O povo precisa estar muito calmo, sereno e tranquilo para decifrar e decidir esse momento. Muita calma nessa hora, pois vivemos hoje um momento melancólico da história brasileira.

Esse momento político é ímpar, porém, muito incerto e instável. O apoio incondicional à democracia deve ser a prerrogativa, o ódio que tem sido inflamado no país demonstra uma incapacidade de se realizar o luto (face o não querer deixar os antigos e implantar uma real renovação), e crê que será preciso encará-lo independentemente do resultado final do processo eleitoral e desse processo pelo qual passa a nação.

A política brasileira sempre foi marcada pela agressividade. O momento atual tem sido muito propício às agressividades. Em certo ponto, deve ser essa realidade a ser verificada neste período eleitoral até o dia 3 de outubro. Segundo o filósofo Vladimir Safatle, “a diferença é que, antes, ela (a agressividade) era neutralizada”. Ou seja: o primeiro que desse um passo desencadeava qualquer coisa. “Era como um urso polar diante de lobos”, compara ele.

Percebe-se que nossa criatividade, no campo político, está hoje limitada por dois afetos bloqueadores: o medo e a esperança. Esses afetos se organizam por uma relação com o tempo e com uma expectativa de um mal ou de um bem por vir. A coisa é complicada, pois pode-se repetir tudo de novo. E como o povo tem a “mania”, “obsessão” e mesmo “compulsão” de repetir: escolher os mesmos políticos, o que acaba sendo algo muito instável e até perigoso, uma vez que o medo persiste e a esperança: essa esperança que bate no peito de cada um, que move a Nação, pode ser frustrada, interrompida, usurpada castrada ou estuprada.

A psicanalista Maria Rita Kehl analisou a ideia de esperança a partir de duas possibilidades. uma, quando ela constitui a imagem do que se espera e isso aliena o indivíduo e anula a sua potência de ação. “mas há também uma expectativa boa em relação à vida. que ajuda a superar a perda, por exemplo. em algumas pessoas a expectativa boa sobre a vida é o que faz ir além, afirma ela”.

A política se tornou um lugar onde você “compra” o candidato melhor ou é “comprado” por ele. Isso é muito complicado e o Brasil precisa mudar essa cara, questionando a possibilidade de, num campo ideal, as pessoas saberem como agir diante de um impasse, ou seria possível pensar em como podemos arcar com as consequências de não saber como agir?

O problema hoje, afirma Maria Rita Kehl, é que os discursos se baseiam no mesmo tipo de impacto e de afeto. “é sempre a mesma ausência de proposição. propõem o mesmo vazio. ninguém diz ‘chega desse tipo de posição, somos capazes de usar nossa criatividade para desenhar a latência de nossas potencialidades’”.

Assim, conclui-se que a sociedade brasileira sempre gostou de política e sempre confiou na sua capacidade de inventar. Porém, hoje não vemos atores políticos capazes de dar voz à nossa criatividade.

A política não precisa ser pensada apenas como reflexão estruturada sobre as formas das identidades coletivas em sua pretensa autonomia. Se a psicanálise tem consequência para o pensamento político é por ela trazer uma concepção nova de conflito, de diferença e de singularidade com implicações sobre a economia de relações entre sujeito e sociedade, pois desde seu início, a psicanálise nunca se contentou em ser apenas uma clínica do sofrimento psíquico. Essa é a realidade que se coloca diante de um Brasil que precisa mostrar a cara e chegar a concluir sobre em quem confiar.

Lázaro Tavares

Psicanalista, com especialização em Psicanálise e em Psicologia Clínica.

E-mail: lazarotavares.es@gmail.com / Consultas em Teixeira de Freitas: Tel: (73)99967-3732).

 

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