'Não peguei no rolêzinho', postou estagiária antes de morrer por Covid

'Não peguei no rolêzinho', postou estagiária antes de morrer por Covid
05 abril 18:35 2021 Imprimir notícia
Economia

No período em que esteve internada em tratamento de Covid-19, a estagiária de enfermagem Natália Barbosa Moraes, de 24 anos, fez postagens em redes sociais para alertar sobre a gravidade do coronavírus. A jovem ficou intubada durante 15 dias na Unidade Pré-Hospitalar da Zona Leste de Sorocaba, mas não resistiu e morreu no sábado (27).

O pai dela também contraiu a doença e, até a última atualização desta reportagem, estava internado em um hospital particular da cidade.

Em entrevista ao G1, o namorado de Natália, Aaron Fabrício Pacheco da Silva, de 24 anos, explicou que ela sempre tomou todos os cuidados para evitar a doença e buscava orientar as pessoas.

"Ela era uma enfermeira que não fazia porque era obrigação, fazia porque amava. Ela amava fazer aquilo sem ser obrigada. De quarta, quinta e sexta-feira ela ia ao estágio. Pegava todos equipamentos dela e o jaleco. Ela amava aquele jaleco. Quando chegava em casa, já colocava a roupa dela para lavar", lembra.

Estagiária de enfermagem que morreu por Covid postou alerta sobre doença na internet

Depois da morte de Natália, Aaron divulgou nas redes sociais uma publicação feita por ela durante o período de internação. Fazendo o uso de respiradores, a jovem relatou em texto o medo da intubação e fez um apelo para que as pessoas levassem a doença a sério.

Ela escreveu:

"Todos os dias eu rezo e peço para que não me falte ar, que eu não vá para UTI, que eu não precise ser intubada. Peço todos os dias para que eu consiga respirar sem precisar de suporte. Meus braços já estão doloridos com tanto medicamento sendo administrado e acessos perdidos, exame de gasometria insuportável. Já são 10 dias com essa doença traiçoeira e o desespero me consome. Pessoas morrendo ao meu lado e eu só rezo e peço que eu fique bem. Não peguei indo para rolezinho não, até porque sempre tive noção do quão insuportável era conviver com essa merda. Não é brincadeira, levem a sério. A saúde no Brasil está um caos, por favor, respeitem todo o decreto".

A jovem também compartilhou uma publicação com foto de uma vítima da doença recebendo oxigênio no hospital e depois já sem vida.

Quatro dias depois da postagem, a própria Natália foi intubada – a estagiária chegou a sofrer duas paradas cardiorrespiratórias.

Para Aaron, a valorização dos profissionais da saúde é fundamental. A enfermagem era o maior sonho de Natália, que já tinha curso técnico de auxiliar e buscou se especializar com uma graduação.

"Valorize os profissionais da saúde porque eles, sim, são os verdadeiros heróis. Minha mulher morreu com uma como uma heroína, tentando salvar e dar conforto para todas as pessoas que passaram por essa situação. Hoje estou sem a mulher da minha vida, amanhã pode ser você sem a pessoa que você ama."

Diagnóstico

Natália chegou a receber a primeira dose da vacina contra a Covid-19 no início de março. Uma semana depois, os sintomas começaram a surgir e ela buscou atendimento médico. Na época, foi orientada a cumprir o isolamento em casa – o resultado do teste para a doença sairia em 15 dias.

De acordo com o Aaron, a família decidiu pagar um exame de Covid em uma clínica particular por causa da demora. Veio, então, o resultado positivo, e o estado de saúde de Natália começou a piorar.

A estagiária ficou internada na UPH da Zona Leste, foi intubada no dia 15 de março e morreu 12 dias mais tarde. O corpo da jovem foi sepultado em um cemitério de Ibiúna no mesmo dia.

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